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Como os atalhos do cérebro afetam suas escolhas financeiras?

O cérebro humano foi aprendendo, ao longo do tempo, mecanismos para tomar decisões cada vez mais rápidas. Veja quais são esses mecanismos, como eles funcionam e como afetam o seu bolso.



A psicologia financeira estuda, entre outras coisas, como os atalhos do cérebro afetam nossas decisões, principalmente as financeiras. Entenda.

Abrir os olhos, levantar, arrumar a cama, escovar os dentes, tomar banho, escolher uma roupa… Já imaginou precisar pensar sobre cada pequena ação que você tem ao longo de um dia? Tudo o que você faz, cada movimento do seu corpo, cada objeto que você pega… tudo é uma decisão. Mas a maioria dessas pequenas decisões é automática. Se não fosse assim, você estaria esgotado antes mesmo do café da manhã.  

É que o cérebro precisa de energia para funcionar e manter o seu corpo  funcionando. Quando ele gasta muita energia, fica cansado demais para tomar qualquer decisão, por menor que ela seja. Para gastar o mínimo de energia possível, o cérebro desenvolveu alguns mecanismos ao longo da nossa evolução, alguns atalhos mentais. 

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A psicologia financeira é o campo da ciência que estuda como funcionam esses atalhos e o impacto deles nas nossas decisões, principalmente as financeiras. Quem começou a unir a economia à psicologia foram os pesquisadores Richard Thaler, Daniel Kahneman e Amos Tversky, lá nos anos 1950. 

Eles realizaram estudos que comprovaram, entre outras coisas, que não somos tão racionais como pensamos na hora de tomar decisões, e também conseguiram mostrar como o cérebro funciona nesses momentos.  

Entenda, abaixo, os mecanismos do cérebro que afetam a tomada de decisões, e o que eles têm a ver com o seu dinheiro. Ou ouça o episódio completo do Semanada sobre o tema:

Psicologia financeira: como o cérebro influencia sua decisão?

Tudo o que você vê, ouve, sente e faz é guardado em uma grande biblioteca mental. E quando você precisa tomar uma decisão, seu cérebro consulta essa biblioteca para encontrar referências de situações parecidas e entender como foi o seu comportamento nessas situações. O cérebro corta o caminho e pega um atalho. 

Ou seja, ao invés de tentar resolver o problema do zero, ele tenta achar uma solução a partir de experiências passadas parecidas. Os atalhos mentais são exatamente esses caminhos mais curtos que o cérebro pega. Você não enxerga e nem sente isso acontecendo, mas essa espécie de pesquisa que o cérebro faz e essas referências que ele busca são para te ajudar a tomar uma decisão logo. 

O que tudo isso tem a ver com dinheiro?

Quanto mais simples e rotineiras são essas decisões, mais fácil e rápido é para o cérebro encontrar o caminho. Só que muitas decisões importantes da vida são mais complexas do que escovar os dentes. E isso inclui as questões financeiras. É aí que esse sistema fica mais aberto para falhas.  

Essas falhas se chamam vieses e, assim como os atalhos mentais, elas não são visíveis. Não tem como enxergar esses mecanismos em funcionamento e eles não são nenhum tipo de doença. Eles foram identificados justamente pela psicologia financeira, também conhecida como economia comportamental. 

O psicólogo Daniel Kahneman ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2002 ao concluir, depois de muitas pesquisas, que a mente funciona com dois sistemas de pensamento: o Sistema 1 e o Sistema 2. Esses sistemas são linhas teóricas, não são áreas específicas do cérebro e também não é algo que você consegue enxergar ou sentir.  

  • No Sistema 1, o pensamento é rápido, automático e não consome muita energia. É nesse sistema que aqueles atalhos mentais funcionam a todo vapor. É por causa dele que você escova os dentes e sabe reconhecer um sorriso quando vê um, por exemplo. 
  • No Sistema 2, o pensamento é mais devagar, mais analítico e consome mais energia. Esse sistema é acionado quando você precisa parar para pensar, focar em alguma tarefa ou preencher uma ficha, por exemplo. Nesse sistema, o cérebro consulta sua biblioteca mental, mas não encontra a informação de que precisa ou demora mais para encontrar.

Como isso acontece na prática?

Não tem como escapar desses sistemas. Todas as decisões financeiras passam por algum processo de pensamento. Das ações mais intuitivas, como comprar um salgado na padaria, até as mais complexas, como financiar uma casa. Não importa o tamanho da decisão, os sistemas de pensamento estão atuando nela.  

Os dois sistemas estão sempre ativos, mas é o Sistema 1 que domina a área durante a maior parte do tempo. E é fácil entender o motivo: é ele que faz o cérebro gastar menos energia. Em outras palavras, a maior parte do que você pensa e faz passa pelo Sistema 1. 

É aí que os vieses, aqueles erros, acontecem, porque nem sempre dá para resolver questões financeiras no automático. Fazer pesquisas antes de comprar algum item, avaliar as melhores linhas de crédito para comprar uma casa. Tudo isso requer avaliação de prós e contras. E é preciso esforço e tempo para fazer essas análises. Ou seja, tudo o que o Sistema 1 não faz. 

Nessas situações, o Sistema 2 costuma assumir o controle. Mas até lá, o pensamento mais automático e intuitivo já chegou a uma solução rápida, que nem sempre é a melhor para o seu bolso.

Decisões rápidas, problemas difíceis

Essas soluções rápidas para problemas mais difíceis são os vieses. E eles estão em todos os lugares, como explica a economista comportamental Flávia Ávila, fundadora da InBehaviorLab, laboratório que estuda o impacto do comportamento na tomada de decisão.  

“Nós sofremos com vieses cognitivos em todas as áreas da nossa vida, quando o assunto é tomada de decisão, seja num ambiente de negócios, na nossa vida pessoal, em grupos, ou individualmente. Esses vieses são exacerbados quando a gente fala de dinheiro”, afirma. 

A especialista explica ainda que o cansaço é um campo fértil para os vieses acontecerem. “Pensa aí na sua atenção, na sua capacidade de resolução de problemas. Esse recurso se esgota. Quando estamos esgotados mentalmente, dizemos que estamos com a banda mental totalmente preenchida. O resultado é que nossa capacidade de tomar boas decisões fica afetada”, explica a especialista. 

Quais são os vieses mais comuns, segundo a psicologia financeira?

A psicologia financeira já mapeou dezenas de vieses, mas esse trabalho está longe de terminar. Veja, abaixo, quais são os mais conhecidos desse campo da ciência e como eles funcionam. 

Viés do presente: “não sei se vou estar vivo amanhã”

Responda rápido: você prefere ganhar R$ 100 agora ou R$ 120 daqui a um ano?

Não existe resposta certa ou errada para essa pergunta, mas a psicologia financeira mostra que a tendência é escolher ganhar R$ 100 agora. Por quê? Porque pensar no futuro tem um custo mental, exige muita energia. 

Quem escolheu os R$ 120, geralmente, parou para pensar que não estava precisando desse dinheiro agora e valeria a pena esperar para ter R$ 20 a mais. Ou fez até contas: R$ 120 representam um aumento de 20% em cima dos R$ 100 iniciais – uma rentabilidade maior do que muitos investimentos. 

O problema é que o sistema de pensamento dominante, o Sistema 1, é imediatista e não gosta muito de fazer essas análises. 

Essa tendência de querer tudo agora e evitar pensar no futuro se chama viés do presente. É ele que torna a tarefa de pensar na sua aposentadoria mais difícil, por exemplo. Ou que faz muita gente gastar tudo hoje, porque “afinal, não sei se vou estar vivo amanhã”. 

“A gente valoriza o imediato, mesmo que a gente veja que vai ter algum custo futuro. É muito difícil visualizar um benefício futuro e, por isso, a gente tende a ficar como a gente está”, afirma Flávia Ávila. 

Viés da contabilidade mental: “como assim tem tudo isso na minha fatura?”

Quando a gente fala de comportamento, não tem como isolar um viés do outro. Por isso, o viés do presente, assim como qualquer outro, não atua sozinho.

O viés da contabilidade mental, por exemplo, está muito ligado a essa preocupação maior com o presente. A contabilidade mental é a tendência de fazer contas mentais. Entre anotar os gastos do cartão de crédito e lembrar deles de cabeça, em qual situação você tem mais chance de errar nas contas? 

“A gente tende a alocar o dinheiro para diferentes propósitos, em diferentes caixinhas mentais. Essas caixinhas operam independentemente uma da outra. Temos o dinheiro do supermercado, o dinheiro do almoço, o dinheiro da dívida da casa e assim por diante. E muitas vezes a gente tem dificuldade de fazer essas caixinhas se comunicarem e acabamos perdendo o controle do total dos gastos”, explica a economista comportamental.

É a clássica história da parcela atrás da parcela. Em geral, o foco fica no valor que cabe no bolso. Acontece que aquela parcela de R$ 20 vai se somar àquela outra de R$ 50, àquela de R$ 30, àquela de R$ 100. Sem perceber, de parcela em parcela, sua conta fica gigante. 

Falácia dos custos irrecuperáveis: “já que estourei o cartão mesmo…”

Quem nunca pensou: “já que gastei além da conta, essa comprinha a mais não vai fazer diferença”. Esse comportamento comum também é um viés, identificado pela psicologia financeira como falácia dos custos irrecuperáveis. Traduzindo: é essa tendência de insistir numa decisão, mesmo sabendo que ela já gerou perdas. 

Você consegue enxergar esse viés, por exemplo, quando resolve pedir o jantar pelo aplicativo, já que pediu o almoço mesmo; quando faz uma comprinha a mais, já que estourou o orçamento mesmo. E isso tudo acontece no automático, sem que você pense que esse “a mais” pode ser o início de uma bola de neve no seu orçamento. 

Isso não significa de forma alguma que você deve se privar de tudo o que te traz alegria. Apenas que é importante analisar esse comportamento antes de tomar uma decisão financeira.

Aversão à perda: “é melhor eu aproveitar logo essa oportunidade”

Esse comportamento de nome complicado também está muito ligado a outro bem comum: a aversão à perda. Segundo a psicologia financeira, a dor da perda é maior que o prazer dos ganhos. Ou seja, em geral, todo mundo tem um medo excessivo de perder e, quando perde, essa dor demora a passar. É por isso que grande parte das nossas decisões busca evitar a dor. 

Agora, você deve estar pensando: “como isso pode ser negativo?”. O problema é que esse medo de perder te induz a correr mais riscos para tentar reparar eventuais prejuízos. Por exemplo: querendo pagar uma dívida logo, você faz outra, sem analisar os juros, e vai se enrolando ainda mais.

Esse viés é bem comum no mundo dos investimentos. Um investidor, por exemplo, pode manter o dinheiro aplicado em uma ação da Bolsa que só cai na esperança de que ela se recupere, e reverta as perdas que ele já teve. 

O contrário também acontece: o investidor vende os ativos que estavam subindo antes da hora, com medo de perder o que ele já ganhou.

A aversão à perda também pode levar investidores a aplicarem dinheiro em ciladas, com receio de perder “aquela oportunidade imperdível” – que muitas vezes pode ser um golpe. 

Autoconfiança excessiva: “é claro que vai dar certo”

Cuidado com as certezas. No mundo do dinheiro, elas podem fazer você enxergar oportunidades que não existem e te deixam mais vulnerável a golpes.  

O viés da autoconfiança excessiva é aquela tendência de confiar demais nos próprios conhecimentos, opiniões e habilidades. Ou seja, é aquela certeza de que você tem todas as informações necessárias para tomar uma decisão, mesmo quando não tem. 

Esse viés também é comum no mundo dos investimentos. Quando um investidor tem sucesso com um ativo, por exemplo, ele corre o risco de acreditar demais em sua própria capacidade, e esquece de considerar outros fatores, como o momento de mercado.

Um estudo da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), realizado com 300 gestores de fundos, mostrou que 74% deles declararam que têm desempenho acima da média, enquanto quase todos os 26% restantes informaram que possuem desempenho mediano. Em outras palavras, 100% dos entrevistados afirmaram que tiveram desempenho na média ou acima da média – o que é impossível, uma vez que existem muitos fundos e carteiras com desempenho abaixo da média. 

Viés da confirmação: “tenho certeza de que meu caminho é o melhor”  

A autoconfiança excessiva caminha de mãos dadas com o viés de confirmação. Segundo a psicologia financeira, esse viés representa o comportamento de dar mais valor àquilo que confirma nossas ideias. É aquela velha história de acreditar que sempre temos razão e buscar somente narrativas e argumentos que confirmam o que a gente acredita. Tudo o que contraria nossas crenças tem menos valor. 

Por exemplo: se você acredita que comprar uma casa é melhor do que alugar, você busca informações, especialistas e exemplos que comprovam a sua crença. E isso tudo é inconsciente. Se você não decidir ouvir o outro lado da história, abertamente, dificilmente vai mudar de ideia.

Esses foram apenas alguns comportamentos que influenciam as nossas decisões financeiras, mas os estudos não param e, cada vez mais, mostram que fatores emocionais e psicológicos pesam mais nas escolhas financeiras do que se imagina.

Tem como eliminar esses vieses? 

Para essa pergunta, há uma boa e uma má notícia. A má notícia é que esses vieses fazem parte da evolução humana e, por mais que você tente, não tem como eliminar esses comportamentos de uma vez por todas. Na verdade, nem seria bom você fazer isso, segundo a economista comportamental Flávia Ávila. 

“Muitos desses mecanismos são maneiras que o nosso corpo encontrou para sobreviver ao ambiente. Se a gente não tivesse nenhum desses vieses ou gatilhos para agir, será que a gente sairia de casa? Será que realmente considerar todas as informações seria a forma mais inteligente de agir? Por que o nosso cérebro funciona com padrões e associações? Porque dessa maneira a gente não precisa passar pelo ônus de raciocinar tudo de novo para cada decisão”, explica. 

A boa notícia é que dá para contornar alguns vieses, diminuindo seus efeitos negativos. Veja como: 

  • Evite aceitar a primeira decisão que vem à sua cabeça, quando estiver diante de uma situação – essa escolha nem sempre vai ser a melhor, só a mais rápida.
  • Busque informações antes de decidir algo mais difícil. Evite se apoiar apenas nas fontes que você conhece, como aqueles amigos de sempre, sua família e os perfis que acompanha em redes sociais. 
  • Ouça quem está fora da sua bolha. Isso te ajuda a ter uma visão diferente da questão. Mas para que isso faça sentido e tenha efeito, você precisa estar aberto a ouvir de verdade.

Crie um ambiente que favoreça a melhor decisão

Mas só informação não adianta. Novos estudos da economia comportamental têm mostrado que é preciso mais do que isso. O economista Richard Thaler, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2017, e o pesquisador Cass Sunstein concluíram que é preciso criar uma arquitetura de escolhas, ou seja, um ambiente que favorece as melhores decisões e hábitos e que coloca barreiras para as decisões ruins. 

Eles também concluíram que esse ambiente deve estar repleto de nudges, que são pequenos estímulos que nos ajudam a tomar melhores decisões, como explica Flávia Ávila.  

“O que nós sugerimos é criar mecanismos que nos ajudem a alterar o contexto em que a gente vive para não cairmos em armadilhas. Se eu souber que ir ao supermercado com fome deixa a minha compra na média mais cara, eu vou mudar o meu contexto. Ou seja, vou comer antes de ir, vou criar estratégias para que eu tome decisões melhores quando eu for ao supermercado”, afirma. 

Na prática, a arquitetura de escolhas ajuda a criar um ambiente que dificulta tomar decisões piores e que facilita tomar decisões que são melhores para você.

Os estudos sobre comportamentos aplicados às decisões financeiras ainda têm muito o que avançar. Mas o que eles já mostram até aqui ajuda a entender melhor como nosso cérebro funciona e como podemos aplicar esse conhecimento para ter uma vida financeira melhor. 

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