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O fim do dinheiro físico está próximo mesmo?

Especialistas já preveem o fim das notas e moedas há décadas. Com a pandemia, essas previsões se intensificaram. Mas o que isso significaria na prática?

Na década de 1950, estudiosos falavam de um futuro em que não haveria mais papel-moeda. Para eles, todas as transações seriam feitas através de um cartão plástico.

Acelere para 2020: a pandemia do novo coronavírus impôs medidas de distanciamento social e acelerou a necessidade das pessoas de terem soluções cada vez mais digitais para pagamentos.

Para quem tem a possibilidade, melhor resolver tudo sem tocar em dinheiro, ou ir a uma agência bancária.

Olhando para esse cenário, estamos mesmo à beira de um mundo de dinheiro totalmente digital? O que isso significaria na prática?

O papel-moeda vai acabar no Brasil?

Entre cartão de crédito, pagamento instantâneo, transferência e QR Code, existem hoje dezenas de formas de fazer transações financeiras sem nunca tocar em cédulas e moedas. Mas será que é tão simples assim falar que teremos um futuro só de dinheiro digital?

 Mitya Ivanov / Unsplash

Para responder essa pergunta, é preciso lembrar antes de um dado muito importante: um em cada quatro brasileiros não têm acesso à internet.

Isso significa cerca de 46 milhões de pessoas offline no país, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, que foi divulgada em abril de 2020.

Em áreas rurais, o índice de brasileiros sem internet chega a 53,5%.

Para boa parte dessas pessoas, meios físicos de pagamento não são só uma opção. São uma necessidade. Há lugares no Brasil e no mundo em que o pagamento exclusivamente digital está muito longe de ser uma realidade.

Países com contextos muito diferentes do nosso (como a Dinamarca e a Suécia) hoje já permitem que lojas recusem pagamentos em dinheiro físico. Mas essa discussão também já chegou por aqui, embora não tenha ido pra frente: em 2016, uma ideia legislativa propunha o fim do papel-moeda no Brasil.

Então os meios digitais de pagamento estão parados?

Muito pelo contrário. A pandemia agilizou o processo de digitalização de pagamentos em três anos, segundo dados do Data Nubank.

Com a necessidade do distanciamento social, as pessoas aumentaram o uso de meios digitais para fazer transações – as compras online no cartão Nubank, por exemplo, chegaram a 45% em abril de 2020, um patamar que só era esperado para 2023.

Data Nubank / Divulgação

No meio do caminho veio o Pix. O novo meio de pagamentos instantâneos do Banco Central também vem crescendo  com rapidez. Segundo o BC, mais de 140 milhões de transações foram feitas desde dezembro.

Mas, do outro lado da balança, a história é diferente.

Pode parecer contraditório, mas, ainda que os pagamentos digitais venham aumentando, a demanda por papel-moeda também cresceu durante a pandemia.

Em julho, o Banco Central comunicou a criação da nota de R$ 200. Uma das justificativas citadas foi o processo de entesouramento que o Brasil começou a passar – em outras palavras, pessoas acumulando mais dinheiro físico em casa.

Todo ano, o BC faz uma estimativa de quanto dinheiro físico precisa estar disponível para a população. A expectativa para 2020 era que o pico de dinheiro em circulação fosse de 301 bilhões de reais em dezembro. Só que já em abril, no começo da pandemia, o pico foi de 342 bilhões de reais, muito acima do esperado.

A explicação do Banco Central foi de que, em momentos de incerteza, as pessoas ainda se voltam para as reservas de dinheiro, que conhecem melhor e confiam.

Ou seja: dinheiro físico ainda importa muito

Em 2019, as notas e moedas eram o principal meio de pagamento para 71% dos brasileiros, segundo o Instituto Locomotiva – no caso das pessoas das classes D e E, isso cresce para 89%.

Mas o Brasil e o mundo caminham sim em uma direção mais digital.

Ao se referir a uma sociedade sem dinheiro físico na década de 50, os estudiosos falavam que todas as transações seriam feitas com um cartão de plástico. Bom, até o fim de 2018, o Brasil tinha quase 99 milhões de cartões de crédito e mais de 115 milhões de cartões de débito ativos, segundo o BC.

Conforme o mundo avança, as definições de novas tecnologias também mudam.

O dinheiro físico tem os dias contados?

É pouco provável – pelo menos em um futuro previsível. Segundo um artigo da professora de Harvard Shelle Santana, estamos caminhando para um mundo com cada vez menos dinheiro físico. Mas não com ele totalmente eliminado.

Acelerar a digitalização dos meios de pagamento tem várias vantagens, como a diminuição de custos de produção, a praticidade e a documentação das transações.

Mas garantir que esse processo aconteça sem que uma parcela da sociedade seja excluída do mundo financeiro é fundamental.

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