De quatro em quatro anos, uma paixão toma conta do Brasil: o álbum de figurinhas do mundial. Muito além do futebol, essa é uma tradição que resiste ao tempo e que une crianças e adultos em torno das páginas com o rosto de diversos jogadores.
E o fenômeno vai muito além das fronteiras brasileiras. Segundo o The Guardian, o faturamento anual da Panini, empresa responsável pela produção e distribuição dos álbuns de figurinhas, mais do que dobra em anos em que o torneio acontece, saltando de uma média de US$ 613 milhões para cerca de US$ 1,4 bilhão por ano.
Wellington Yamashita, de 43 anos, analista comercial, completou seu primeiro álbum do mundial no torneio de 1990. E a tradição segue até hoje. “Tenho todos completos. O deste ano ainda não finalizei, mas com certeza farei isso nos próximos dias", diz ele.
Porém, completar o álbum também exige planejamento financeiro – já que os colecionadores podem chegar a desembolsar entre R$ 1 mil e R$ 7 mil. No Brasil – considerado o maior mercado consumidor de figurinhas da Panini no mundo –, só a rede Leitura, maior livraria do país, projetou faturar R$ 140 milhões com a venda de 20 milhões de pacotes de figurinhas do mundial 2026.
A seguir, entenda os custos envolvidos “nessa febre” que atravessa gerações.
Quanto custa completar o álbum do Mundial?
Em 2026, o maior torneio de futebol do mundo l terá 48 seleções participantes – e não 32, como nas últimas edições. Logo, o álbum também precisou refletir tais mudanças.
São 980 figurinhas no total (sendo 68 cromos especiais em papel metalizado, com escudos, estádios, mascotes e outros elementos do torneio) distribuídas por 112 páginas.
Para se ter uma ideia, em 2022 o álbum tinha 670 figurinhas – cerca de 31% a menos do que a edição atual.
Neste ano, o álbum está disponível em quatro versões, por diferentes valores:
- Capa brochura (a clássica): R$ 24,90
- Capa dura: R$ 74,90
- Capa dura prata ou dourada: R$ 79,90
- Versões premium (com acabamentos de luxo e combos especiais): cerca de R$ 359,90
Cada pacotinho contém 7 figurinhas e custa R$ 7 – ou seja, cada cromo sai por R$ 1.
Em um cenário em que nenhuma figurinha se repete (o que é praticamente impossível, por mais otimista que você seja), seriam necessários exatamente 140 pacotes, que é igual a R$ 980 + o álbum.
Na prática, as repetições são inevitáveis e aumentam conforme o álbum vai ficando mais cheio. Quando você tem 900 figurinhas coladas e precisa de mais 80, por exemplo, as chances de abrir um pacote e encontrar algo novo são bem baixas, de acordo com a chamada Lei dos Grandes Números, que afirma que, quanto maior for o número de vezes que um experimento é repetido, mais a média dos resultados obtidos se aproximará do valor esperado.
Segundo pesquisa do IMPA (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), um colecionador precisa, em média, de cerca de 7.300 figurinhas para fechar o álbum. Isso equivale a aproximadamente 1.045 pacotinhos, o que revela um gasto acima de R$ 7 mil. Vale dizer que, nessa situação, mais de 6 mil figurinhas serão repetidas.
Ou seja, imagina fazer esse investimento todo para completar um álbum? E é aí que entra um elemento muito importante da economia da figurinha: a prática da troca.
Trocar figurinhas do álbum do Mundial: uma estratégia que começa pela economia e vira fenômeno cultural
Participar de grupos e pontos de troca pode reduzir o gasto em quase 80%, fazendo o valor médio do álbum cair para cerca de R$ 1.400, simplesmente trocando cromos repetidos com outras pessoas.
A estratégia preferida dos veteranos é definir um orçamento fixo para comprar pacotinhos, acumular as repetidas e usá-las como "moeda" nas trocas.
“Quando eu era mais novo, meus pais sempre me ajudavam a comprar figurinhas. Na verdade, peço até hoje", conta Wellington. “Mas a troca é essencial para ter menos gastos. Então, eu sempre faço isso com meus amigos mais próximos e familiares”.
Para quem prefere pular essa etapa, existe uma alternativa: álbuns já completos à venda em plataformas como o Mercado Livre, com preços que giram entre R$ 1.320 (com as figurinhas já coladas) e R$ 1.500 (com cromos soltos para colar), a depender do modelo e do vendedor. Essa opção atrai quem prefere a praticidade de ter o álbum pronto em vez da experiência da caça pelas figurinhas.
Pontos de troca de figurinhas: interação e menos gasto
Shoppings, escolas, praças, arenas esportivas e outros lugares passaram a se transformar em pontos de encontro para colecionadores. Em São Paulo, a Banca La Plaza, na Avenida Sumaré, na capital paulista, existe há 35 anos e o dono, Luís Alberto de Freitas, sempre comercializou figurinhas do torneio.
“Aqui vem menina, menino, idoso com 89 anos de idade, adolescentes, homens e mulheres. Ou seja, é um negócio que atrai e envolve todo mundo", diz ele. “E é legal porque ensina as crianças a negociarem nas trocas de figurinhas, “bater bafo” [brincadeira infantil tradicional onde o objetivo é virar figurinhas com o impacto do ar] e socializar".
Segundo o Índice Cielo do Varejo Ampliado (ICVA), as bancas de jornal faturaram 221,2% a mais no fim de semana de lançamento do álbum, em comparação com o mesmo período de 2025. O ticket médio dos consumidores mais que dobrou, saltando de R$ 24,22 para R$ 55,90.

O que torna esses espaços tão especiais vai além do aspecto econômico. Em poucos minutos, desconhecidos iniciam conversas, fazem acordos e comemoram juntos ao encontrar uma figurinha difícil. Esse tipo de interação, movida por um objetivo em comum, é exatamente o que deixa o momento mais leve e contribui para transformar a experiência em algo marcante.
“Antes de ser mãe nunca fui ligada em futebol, então não fazia o álbum. Começamos no mundial de 2022, que meu filho já estava entendendo e interessado no esporte", conta Amanda Melo, confeiteira, mãe de Leonardo, de 10 anos.
Segundo ela, faltam apenas 7 figurinhas para completar o álbum [até a publicação deste conteúdo] e ela e seu marido investiram, até o momento, cerca de R$ 500. “De início, compramos 10 pacotinhos e estipulamos um limite de valor, exatamente para que o Leo fizesse o que é proposto, que é a interação que existe com as trocas e brincadeiras. Também fomos em pontos de troca em shoppings, nos reunimos com moradores do condomínio e na escola ele bate bafo, tudo para realizar as trocas", diz.
Por que os adultos se empolgam mais do que as crianças quando o assunto é álbum de figurinhas do Mundial?
As crianças até se animam e participam das trocas de figurinhas, da colagem no álbum e de tudo que envolve essa paixão nacional. Mas, geralmente, são os pais, os tios e os avós que chegam com pilhas organizadas em saquinhos plásticos, já separadas por números, com uma lista em papel ou no celular.
E ainda há um grande grupo de adultos que coleciona o álbum independentemente das crianças. Isso porque, mais do que um passatempo, as figurinhas costumam despertar memórias afetivas ligadas à infância e a outros momentos marcantes da vida. Estudos em neurociência indicam que a nostalgia ativa simultaneamente regiões cerebrais associadas à memória e aos circuitos de recompensa, reforçando sensações de prazer e bem-estar — um fenômeno discutido no artigo Padrões de Atividade Cerebral Associados à Nostalgia: Uma Perspectiva da Neurociência Social e Cognitiva, publicado na revista Social Cognitive and Affective Neuroscience.
Esse é o caso de Wellington Yamashita, um apaixonado por futebol e mais ainda pelo torneio que ocorre a cada quatro anos. “Eu sempre gostei de álbum de figurinha no geral, mas o álbum do Mundial é o único que é tradição para mim mesmo", conta ele. “Fico feliz em ter, em completar, em viver essa competição, que é o topo desse esporte, onde os melhores jogadores do mundo se encontram e a gente para pra admirar", diz.

O ato de comprar um pacotinho, abrir, sentir o cheiro dos cromos e colar no álbum remete a sensações guardadas na memória afetiva e isso ativa o sistema de recompensa do cérebro de um jeito diferente.
E Wellington reforça isso. “Muita gente não sabe, mas o momento de abrir o pacote e colar a figurinha vai ficar guardado para sempre na memória. A felicidade de achar a última figurinha é inexplicável", comenta ele. “Além disso, ver criança comemorando porque tirou o Cristiano Ronaldo, Messi ou outro jogador que admira… são coisas que o dinheiro não compra”.
Por que o álbum do Mundial une gerações?
Não é só nostalgia. É experiência compartilhada. A tradição permanece viva mesmo após décadas e desperta lembranças da infância em muitos adultos, que colecionam ao lado dos filhos e netos.
“Abrir os pacotinhos e colar as figurinhas no álbum é um momento em que nós três fazemos juntos. Nos desconectamos de tudo e temos um momento de qualidade em família, para gerar memória afetiva", diz Amanda Melo, se referindo ao marido e ao filho.
O hábito acaba criando uma ponte entre gerações, unindo memórias antigas e novas experiências em torno do futebol. Mesmo em uma época marcada pelo excesso de telas e pelas relações virtuais, os álbuns continuam estimulando o contato presencial e fortalecendo vínculos sociais.
“Abrir os pacotinhos tem toda uma magia por trás, a expectativa de vir justamente a figurinha que você precisa para completar uma determinada seleção, a expectativa de vir um cromo raro… O Leo mesmo conseguiu uma rara do Vini Jr. e ficou numa felicidade única", compartilha Amanda. “Essa tradição é incrível e com certeza faremos os próximos álbuns do mundial, mesmo depois que nosso filho crescer".
Encontrar uma figurinha especial pode ser um bom sinal, mas, vale você saber que, sinal de sorte mesmo é contar com o Nubank nesse mundial. Durante o torneio, clientes têm dados extras no NuCel, até 50% de desconto em TVs e celulares Samsung e pode contar com a opção de Pix no crédito. Tudo para você não perder nenhum jogo!



