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Como vivem as mulheres negras chefes de família?

Mais da metade das famílias brasileiras são lideradas por mulheres negras. Neste Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, nos debruçamos sobre números e histórias que ajudam a traduzir a realidade delas. Confira



Você conhece a escritora Carolina Maria de Jesus? Ela é um dos nomes mais notáveis da literatura brasileira por escrever de forma honesta sobre a realidade de pessoas pobres que vivem nas periferias do país. Uma realidade que ela própria conheceu de perto. 

Seu livro mais famoso, chamado “Quarto de Despejo”, foi lançado em 1960 e descreve o cotidiano na antiga Favela do Canindé, em São Paulo, onde a escritora mineira viveu na década de 1950. Em uma das passagens do livro, ela diz:

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“Há várias coisas belas no mundo que não é possível descrever-se. Só uma coisa nos entristece: os preços, quando vamos fazer compras. Ofusca todas as belezas que [sic] existe”.

Seis décadas separam o Brasil de Carolina Maria do país atual, mas de algum modo o texto dela permanece atemporal. As coisas melhoraram um pouco de lá pra cá, é verdade, mas o cenário ainda está longe do ideal. 

Uma ida ao mercado confirma isso. Pensa rápido: quantas coisas você consegue comprar hoje com uma nota de R$ 20? Os preços subiram, o poder de compra caiu, e as famílias brasileiras se viram como podem para continuar botando comida na mesa. 

Tem uma outra coisa nessa comparação que também não mudou: mulheres negras, como a Carolina Maria, continuam sendo as que mais sofrem com a avalanche de más notícias econômicas. O motivo? A junção de fatores históricos como o machismo e o racismo as coloca sob a mira da vulnerabilidade social. Muitas delas são, também, as únicas responsáveis pelo sustento da família, o que deixa essa equação ainda mais difícil de resolver. 

Neste texto especial, que celebra o Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha, você vai conhecer histórias de mulheres que sentem essa realidade na pele. São mulheres que chefiam suas famílias e que, diariamente, superaram obstáculos para conseguir mudar a própria realidade.

Por que a crise econômica afeta mais as mulheres negras?

Todo brasileiro sente a crise econômica na prática, mas não da mesma maneira. 

Tem uma analogia que ficou bem famosa durante a pandemia, que diz que “estamos todos passando pela mesma tempestade, no mesmo mar, mas uns estão em um navio e outros estão num barquinho”. É mais ou menos essa a ideia. Historicamente, pessoas negras sempre estiveram nesse barquinho. 

Mesmo sendo 56% da população brasileira, segundo o IBGE, pessoas negras são sub-representadas em espaços de poder, geralmente ocupam as posições mais baixas do mercado de trabalho, moram nas áreas com as piores condições das cidades brasileiras e lidam com a violência e exclusão social de forma mais intensa. 

Quer um exemplo? Negros recebem salários até 31% menores em comparação com pessoas brancas com o mesmo grau de escolaridade, segundo pesquisa do Instituto Locomotiva. Entre a parcela mais pobre da população, os negros são 32,9%, de acordo com o IBGE

O cenário, que já não era bom, piorou com a pandemia. Pelo menos 61 milhões de pessoas estavam em situação de pobreza em 2021, segundo estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo. Antes da Covid-19, 33% das mulheres negras estavam abaixo da linha da pobreza. Em 2021, esse número subiu para 38%. 

Ou seja: o Brasil segue reproduzindo desigualdades sociais, fazendo com que a corda arrebente do lado mais fraco.  

Lares chefiados por mulheres negras: como vivem as famílias?

Pelo menos 55% das famílias brasileiras hoje são lideradas por mulheres negras, que chegam a essa condição pelos mais diversos motivos, segundo levantamento da consultoria IDados, feito com base em números do IBGE. Umas buscam por renda após a separação. Outras querem independência e correm em busca dela. Esse segundo caso representa bem a história da Alessandra Andrade, paulistana e graduada em enfermagem. 

“Lembra o Prouni? Então, eu estudei como cotista”, ela diz, enquanto narra a jornada exaustiva que precisou fazer para concluir a graduação. “Eu consegui 50% de bolsa, mas tinha que ter os outros 50%, né? Além de tudo, no meio, ainda fiquei desempregada e fui morar de favor. Tinha dias que eu chegava em casa e não tinha dinheiro pra almoçar e comia salgadinho porque era o mais barato. Não tinha o que fazer, né?”

Alessandra Andrade, empresária 

Alessandra sempre foi uma mulher independente e lutou até conseguir o diploma que a ajudaria a mudar a própria realidade. Ela e a irmã fizeram parte das primeiras gerações de estudantes beneficiados pela política de cotas raciais no país, ainda na década de 2000, algo que até então era optativo para algumas universidades.

Ela se casou, teve uma filha, e permaneceu sendo a principal pessoa da família a manter as contas da casa em ordem. Entre idas e vindas, ela se encontrou na área da saúde e se formou enfermeira. O passo seguinte, para realizar os próprios sonhos e continuar financiando os sonhos da família, foi empreender. Daí veio a ideia de abrir uma empresa de cuidadores.

A busca pelo empreendedorismo costuma ser regra em casos similares: segundo o SEBRAE, 49% das mulheres que abrem um negócio hoje são as principais provedoras da família. Já a porcentagem de mulheres negras que empreende fica em 48,5%. Muitas delas, inclusive, abrem um negócio por necessidade e recebem a menor renda média, de R$ 1384.

“Eu sou a diretora da empresa e o meu esposo me auxilia na parte de contabilidade e do financeiro. Além disso tenho uma filha de 10 anos, tem a casa, tem a família e toda a outra parte que precisa ser administrada. Não existe fim de semana, não tem folga, não tem feriado”, conta Alessandra. 

Essa migração pro empreendedorismo muitas vezes é a única saída que as mulheres encontram. Outro dado também diz que 65% das famílias chefiadas por mulheres negras hoje sofrem com a insegurança alimentar, segundo a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional. 

Se a gente fosse imaginar um perfil médio da pessoa desempregada no Brasil, ele seria de uma mulher, jovem e negra, de acordo com a média geral dos dados do IBGE de 2021.

Maternidade e trabalho: como lidar com a dupla jornada?

Dupla ou tripla, como no caso de mulheres que não desistem dos estudos mesmo entre as dificuldades. Essa jornada é sentida na pele por Iane Pessoa, graduanda em Serviço Social, mãe e chefe de família. Ela trabalha numa consultoria de Diversidade e Inclusão e tira do emprego o sustento da família. O marido ajuda a equilibrar os pratos, mas os desafios e os medos são constantes. 

“Hoje eu tenho dependente de mim o meu marido e a minha filha, de três anos. Eu comecei a ser a chefe da minha família há uns dois anos, quando eu decidi que deveria voltar ao mercado. Não foi fácil reingressar no mercado como mãe. Eu tinha apenas 23 anos e só consegui me recolocar quando uma outra mãe me abriu uma porta”.

Iane Pessoa, consultora e especialista em Diversidade e Inclusão

Iane não é a única: 43,7% das mães que deixam seus postos no emprego para se dedicar à gestação encontram dificuldades em se recolocar, segundo o IPEA, o Instituto de Pesquisa Economia Aplicada.

Você se lembra da escritora Carolina Maria de Jesus, que citamos no começo do texto? Aqui vai mais uma citação do livro dela, “Quarto de Despejo”: “Não digam que fui rebotalho, que vivi à margem da vida. Digam que eu procurava trabalho, mas fui sempre preterida.” 

A frase do livro exemplifica como a falta de oportunidades tem empurrado mulheres negras para a informalidade: 65% delas hoje sobrevivem do trabalho doméstico e têm renda média inferior a um salário mínimo, segundo o Dieese. Diante deste cenário, fica difícil não pensar em como o sustento de quem precisa de você vai chegar à mesa. A própria Iane já se viu nessa situação:

“Como mulher negra, crescer e ascender dentro de organizações é muito difícil. Então você começa a se questionar se o que você tem vai ser o suficiente pelo tempo que você precisa. Daqui a pouco o dinheiro não vai dar, vai começar a atrasar conta, aluguel, porque as coisas vão continuar subindo de preço e se você não consegue manter seus padrões de vida, isso também começa a prejudicar sua saúde mental”, diz Iane. 

Como mudar esse cenário?

Reconhecer os problemas e a bagagem emocional de mulheres negras já é um um primeiro passo. Quando a gente compreende os números e percebe que esse grupo é mais vulnerável socialmente, fica mais fácil agir sobre o tema. 

Um segundo exercício é o de ser a rede de apoio de alguém. Mulheres que chefiam famílias sozinhas não são super heroínas, mas sim humanas sobrecarregadas, que precisam de suporte. Se você conhece uma pessoa assim, seja a força que ela precisa.

E o terceiro, mas não menos importante, é perceber que o enfrentamento do racismo deve ser coletivo. Você não precisa ser uma pessoa negra para ser antirracista. Diferente da época de Carolina Maria, que começou a escrever nos anos de 1950, hoje temos informação e ferramentas que podem ser efetivas para promovermos uma transformação coletiva. 

Ainda na obra “Quarto de Despejo”, a escritora diz: “Mas o povo não deve cansar. Deve lutar para melhorar o Brasil para os nossos filhos não sofrer o que estamos sofrendo.” 

Que assim seja, Carolina! 

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Este conteúdo faz parte da missão do Nubank de devolver às pessoas o controle sobre a sua vida financeira. Ainda não conhece o Nubank? Saiba mais sobre nossos produtos e a nossa história.

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